Porto Seguro | Parte 2
Às vezes o cérebro humano nem sempre reage com a explosão de adrenalina que se espera quando ele é exposto a situações de ameaça extrema à vida — os músculos enrijecem, o tempo se alonga, e o mundo ao redor passa a se mover com dolorosa clareza. Os psicólogos chamam de resposta de imobilidade tônica esse mecanismo evolutivo herdado dos ancestrais que se fingiam de mortos diante de predadores, mas na vastidão labiríntica de metal e aço da Sevastopol se fingir de morto nada significava.
Hope permaneceu imóvel por quatro segundos. Embora parecesse
um curto espaço de tempo, em uma estação orbital que se deteriorava a 39,3
anos-luz da Terra, onde o medo da criatura tinha jogado as pessoas umas contra
às outras, em quatro segundos muita coisa poderia acontecer — uma porta
automática poderia se fechar, um sintético poderia se aproximar, um módulo
inteiro poderia perder energia, um furo na parede errada poderia despressurizar
toda uma ala e até mesmo alguém em desespero poderia decidir puxar um gatilho
contra um vizinho para garantir a próxima refeição. Na Sevastopol, quatro
segundos eram suficientes para mudar a vida de alguém. Mas o silêncio opressor
que se formou na sequência do disparo se rompeu com som oco das juntas dos
dedos de Noah contra o vidro da cozinha, batendo repetidamente até que Hope
fosse arrancado de sua inércia, olhasse para ele e visse seus lábios se moverem
lentamente, soletrando cada sílaba sem emitir qualquer som.
— Esconde! — falou, antes de desaparecer por baixo da
janela.
Ainda atordoado pelo som da pistola pneumática, Hope não
entendeu de início o que Noah quis dizer, mas o chamado ao menos serviu para
devolver movimento ao seu corpo, e a visão do rapaz trouxe de volta o peso da
responsabilidade, que esmagou de vez sua paralisia. Ele olhou ao redor, à
procura de um lugar escuro onde pudesse se esconder, e viu logo à sua frente, no
início da curva que o corredor fazia para a direita, um único armário estreito
cuja porta jazia convidativamente entreaberta. Ele colocou o lança-chamas e a
pistola pneumática no chão, uma vez que o armário não o comportaria com toda
aquela parafernália, e não correu até lá; deu passos largos e silenciosos,
quase saltitando, e abriu a porta de alumínio, que rangeu dolorosamente no
fundo de seu ser, e ele quase congelou de novo; sentiu seu estômago se contrair
e formar a bile que traz a sensação de frio na barriga, e ele pensou em desistir
daquela ideia e procurar outro lugar para se esconder. Mas então ele ouviu a
criatura se rastejar com a agilidade natural de um predador pelo duto de manutenção
que corria sobre o corredor, bem acima de sua cabeça; ainda parado e com um pé
já dentro do armário, Hope acompanhou o duto com o olhar, buscando o ponto em
que ele terminava, mas a curva do corredor terminava em insidiosa escuridão.
Mas seis anos vivendo na Sevastopol deram a Hope um senso
prático a respeito daquela estação; ele não precisava ver o fim daquele duto
para saber que ele desembocava três metros adiante — e, também não precisava
fazer as contas para saber que a criatura alcançaria o alçapão à frente em
menos de quatro segundos — não era um cálculo consciente, era a memória
entranhada em seus ossos. Hope possuía uma memória procedural da Sevastopol
muito superior ao da maioria dos quinhentos colonos que viviam nela; o mapa cognitivo
que ele havia construído durante aqueles seis anos era extremamente detalhado
e, embora ele não soubesse, foi essa capacidade que o manteve vivo durante
aquela semana.
Hope se enfiou no armário com a urgência de um náufrago
agarrando uma tábua no meio da tempestade, fechando a porta com cuidado
enquanto praguejava mentalmente contra o rangido áspero que ela fazia; o espaço
era exíguo, o cheiro de ferrugem e óleo queimado sufocava, mas ele sabia que
bastava um suspiro mais alto para que a condenação viesse.
De dentro, só conseguia enxergar através das frestas estreitas
da pequena janela da porta. À sua frente, o corredor jazia na penumbra das
luzes de emergência embutidas, e se abria para os dois lados; à sua esquerda, o
som que vinha do duto parou, e por alguns segundos o silêncio sepulcral tomou
conta, entrecortado apenas pelo ruído dos aparelhos eletrônicos que
milagrosamente ainda funcionavam. A criatura havia parado de andar, mas ainda
assim Hope não se moveu; temia afundar os pés no chão de alumínio do armário, e
enrijeceu os músculos o máximo que conseguia no estado de consciência em que se
encontrava. Ouviu a própria respiração e fez questão de a controlar antes que o
bicho descesse do duto; e, ao respirar com mais suavidade, ouviu os próprios
batimentos cardíacos, disparados feito os de um maratonista na reta final, e
ele teve medo de que a criatura também escutasse. Mas então Hope ouviu o
característico som da escotilha automática que selava o duto se abrindo, e o
som de uma respiração pesada, feita a de um animal grande como um cavalo,
seguida por um silvo agudo.
Desde que soube que uma forma de vida extraterrestre havia
escapado dentro dos limites da Sevastopol, Hope sentiu uma espécie de
empolgação infantil, mas a euforia se desfiou tão logo ele soube que o espécime
a bordo não só havia escapado do confinamento como também era um assassino
eficaz e — como os seguranças privados da Seegson vieram a saber — imparável. O
entusiasmo de encontrar a criatura que pertencia a uma árvore evolutiva completamente
à parte daquela conhecida pelos seres humanos, antes crescente e contumaz,
minguou conforme os cadáveres iam aparecendo pelos corredores e pelas salas dos
níveis inferiores, mais próximos do Núcleo da estação. E lhe pareceu irônico
que a humanidade, dentre todas as exóticas formas de vida que poderia encontrar
pelo cosmos, fosse se deparar com uma que lhe fosse hostil e contundentemente agressiva.
Hope escutou o barulho de algo úmido se arrastando, e podia
jurar que ouviu também o barulho de gotas pingando no chão metálico, vindo do
escuro do corredor, antes que o som de algo pesado caindo preenchesse o
corredor, seguido por um rosnado baixo e uma pesada respiração. Movido por uma
curiosidade mórbida, talvez até suicida, Hope encurvou a coluna um pouco para a
frente, tentando enxergar o que se movia no escuro depois da curva do corredor.
Nada viu além do breu que mais se assemelhava a uma parede sólida de pura
escuridão; mas também não ouviu a criatura dar um único passo depois de ter
saído do duto de manutenção. Ela farejava. Hope era capaz de ouvir sua
respiração, carregada como a de um cavalo, e enquanto ele tentava imaginar como
ela se parecia, a coisa começou a andar na direção do armário; o mecânico se
inclinou até quase encostar o rosto na janela da porta, pronto para ver, pela
primeira vez em sua vida, uma criatura oriunda de outro planeta. Contudo, no
instante em que o bicho se esgueirou para a luz e Hope viu as fileiras de alvos
dentes expostas como as de um animal raivoso, babando e salivando
excessivamente, ele recuou o corpo com um impulso maior do que gostaria de ter
dado. As costas de Hope atingiram o fundo do armário com suavidade, mas no
silêncio pérfido do corredor, o barulho do alumínio soou como o batido de um
tambor, chamando a atenção da criatura.
Hope tampou o nariz e a boca. E congelou pensando que fosse morrer
quando ouviu os passos da criatura se aproximarem do armário; ele imaginou que
o alienígena fosse se aproximar pela frente, mas não foi o que ela fez. Enquanto
ela andava fora do campo de visão de Hope, ele imaginou que seu coração fosse
explodir por não saber o que ela faria; pensou que o bicho fosse arrancá-lo de
lá de dentro pela lateral do armário, e então ele virou a cabeça para a frente
e focou os olhos no corredor por onde viera e que agora se estendia à sua
frente. Pelas frestas estreitas da pequena janela sem vidro, a fumaça de uma
respiração densamente condensada invadiu o armário, soprado pela esquerda — o
hálito ácido do alienígena se misturou ao cheiro de óleo queimado e ferrugem,
trazendo o odor de carne podre de incontáveis vítimas como um prelúdio do que
veio a seguir.
A abóbada alongada da cabeça da criatura surgiu emoldurada
pela janela da porta logo em seguida. Ela não possuía olhos; o crânio era
translúcido, parecia feito de vidro úmido e ossos comprimidos sob a superfície
reluzente; nervuras pálidas como veias fossilizadas, correndo do topo até a
base do crânio, espalhavam-se por toda aquela testa infinita como uma lâmina
arqueada, fria e perfeita como um elmo. A boca exibia lábios que tremiam
ansiosos pela próxima vítima, e carregava as duas fileiras de dentes que Hope
havia visto antes — finos, agudos, e tão brancos que pareciam fabricados —
úmidos como se estivessem eternamente recém-afiados; deles, os fios de saliva
caíam em longos filetes que se estendiam e balançavam antes de cair em direção
ao chão. Através da boca entreaberta, Hope conseguiu visualizar o movimento
interno da língua do bicho, mas quando ela terminou de se abrir, ele sentiu o
nojo e a repulsa de uma secunda boca, menor e mais articulada, onde deveria
haver estar a língua da coisa. Era como se houvesse um animal dentro do outro,
e quanto mais o alienígena respirava para dentro do armário, mais Hope se
enojava, mais transpirava e estremecia. Ele sentiu vontade de gritar, de saltar
para cima da criatura e acabar com aquilo, mas antes que aquela vontade se
transformasse num ímpeto explosivo e suicida, a voz do outro Joe Trabalhador chamou
a atenção do caçador — e, ao menos daquela vez, salvou sua vida.
— Espécie não-catalogada. O que é você? — disse a voz
modulada, e ela fez o bicho se virar de costas para o armário.
Hope só percebeu que havia prendido a respiração quando
deixou que o ar contaminado de óleo e hálito alienígena escapasse de seus
pulmões; os olhos vermelhos do Joe brilharam no fundo do corredor enquanto ele
caminhava profissionalmente, sem qualquer traço de hesitação, medo ou julgamento,
e Hope torceu para que eles se engalfinhassem até a morte ou que, ao menos, um
afugentasse o outro. De dentro do armário, Hope torceu pela briga, sem tomar
partido.
— Falha de contenção registrada — o Joe falou, enquanto
avançava na direção do alienígena — Conectando com Apollo.
A criatura se afastou dois metros em direção ao Joe, dando a
Hope um vislumbre de sua tenebrosa forma esguia, escura feito obsidiana, ainda
que estivesse de costas. Era alto e andava sobre as pernas traseiras, mesmo que
tivesse longos braços que terminavam em seis dedos finos e pontiagudos, mas de
costas, ela era ainda mais desumana. Dos ombros partiam os tubos dorsais —
quatro apêndices cilíndricos que se projetavam para trás, imóveis, como
chaminés mortas, mas que conferiam à silhueta uma imponência quase ritual. O
dorso era estreito e alongado, mas debaixo da carapaça preta e polida era
possível notar a musculatura tensionada, cada fibra trabalhando como uma
máquina de caça perfeita. A coluna se arqueava como um arco vivo, uma espinha
de vértebras alongadas que terminavam em protuberâncias afiadas, lembrando
lâminas expostas e que se movimentavam como engrenagens orgânicas. A cauda, grossa
na base e afilada até terminar em uma ponta óssea parecida com uma lâmina se
movia devagar, varrendo o ar em curvas e arcos preguiçosos — um chicote de pura
morte que oscilava carregado de potencial — pronto para atravessar carne —
fosse ela sintética ou não — com a mesma facilidade com que atravessaria o aço.
Porém o que Hope esperava não aconteceu. O Joe parou diante
da criatura e a sondou com o olhar vermelho.
— Nível de ameaça: não-identificado — concluiu o Joe, antes
de casualmente dar as costas ao bicho — Terei que reportar isso. Estamos
experimentando um nível de risco elevado hoje.
Hope ficou ainda mais confuso quando viu o sintético
desaparecer pelo corredor de onde viera. A criatura, curiosa e talvez também um
tanto confusa, deu dois passos atrás do Joe, e desistiu de segui-lo. Ficou ali
parada, de braços arqueados, ainda de costas para o armário. Ela moveu a cabeça
para a direita, como se estivesse escutando, e depois repetiu o movimento para
o outro lado. A cauda se lançou no ar, descrevendo um arco amplo e passando
perto do armário de Hope, e então o mecânico acreditou que o encontro com o
sintético havia feito o animal se esquecer dele, mas a criatura se voltou para
o armário mais uma vez, como se tivesse se lembrado dele, e caminhou decidida
até parar frente a frente com Hope. A grade da janela de dezoito por treze
centímetros agora era tudo o que separava o mecânico daquela boca dupla saída
de um pesadelo. Acuado, confuso e desesperançado, Hope sentiu o que os ratos
sentiam quando encurralados por um gato.
Ele não sentiu medo, todavia. Para ele, já estava morto —
restava-lhe agora o arremate final, o momento em que tudo se apagaria, e então
virou o rosto de lado, aguardando pelo desfecho de todo o resto. Sentia
arrependimento por ter aceitado aquele cargo, e amaldiçoou a própria escolha;
desde aquele domingo há seis anos que só via o filho através das videochamadas
e das gravações, e agora ele não o veria de forma alguma.
A respiração densa se condensou no interior do armário mais
uma vez, enquanto o monstro ficou ali, imóvel, enquanto farejava através das
grades. O mecânico se manteve rígido, travado como uma corda tensionada ao
limite, prestes a arrebentar; entre o desejo de desaparecer e a certeza de uma
iminente e dolorosa morte, Hope abriu os olhos e a encarou, e achou ter visto
um crânio humano — ou ao menos um que se assemelhasse a ele — por baixo da
carapaça translúcida, e, para ele, foi como se dois olhos o encarassem do fundo
da escuridão daquelas órbitas vazias. Não havia dúvida de que era uma máquina
viva, e Hope teve certeza de que o fim se daria no instante em que o alienígena
abrisse a boca.
Mas a criatura não o tocou; e o fim não veio.
Com um movimento quase displicente, o alienígena recuou
devagar, levando consigo a sombra que oprimia o coração de Hope; a coisa ergueu
o crânio liso como se algo muito além das frestas daquele armário tivesse
chamado sua atenção. A carapaça reluziu na luz mortiça do corredor quando ela
recuou, e a perfeição de sua forma se emoldurou na pequena janela mais uma vez
à medida em que ela girava o corpo para sondar de volta o corredor por onde o
Joe havia ido; caminhou alguns passos, e parou depois da estante atrás da qual
Hope havia se escondido momentos antes de atirar no Joe com a pistola
pneumática; moveu a cabeça para cima, como se procurasse por ali uma passagem
pela qual pudesse se enfiar, e não encontrando, se voltou uma vez mais para a
direção do armário. Hope pensou que ela sondaria o armário numa terceira
tentativa, mas o alienígena passou direto, ainda que lentamente tenha virado
aquele crânio oblongo em sua direção, quase como se quisesse dizer ao mecânico
que sabia que ele estava ali, mas que daquela vez o daria uma chance.
A escuridão depois da curva do corredor tomou o alienígena
de volta, e para Hope, que o acompanhou com o olhar até que o bicho
desaparecesse de seu campo de visão, foi como olhar um espectro regressando ao
limbo de onde nunca deveria ter saído.
Só então Hope respirou. O corpo inteiro lhe doía pelo
esforço de se manter imóvel; no entanto não se moveu. Permaneceu ali,
encurralado, ainda paralisado pela lembrança de que bastara um som mínimo, um
toque descuidado contra o alumínio, para quase selar o seu destino. Ele não
sentia alívio uma vez que o peso da sobrevivência se tornava mais insuportável
a cada encontro; deixar a segurança pífia — quase inexistente — se tornou um
desafio, pois a cada segundo em que passava ali dentro, mais difícil se tornava
de sair.
Hope se pegou imaginando cenários em que a criatura caía
daquele teto no instante em que abrisse a porta, e não acreditava que seria
capaz de escapar de uma situação como aquela que sua imaginação havia
confeccionado. Mais ainda, ele sabia, não era impossível que acontecesse, e esse
era o pensamento que mais o prendia naquele armário, de forma que cinco
segundos se passaram desde que a criatura retornou para a sombra. Dez segundos
depois, Hope pensou que poderia ficar ali dentro para sempre, em segurança, de
modo que os dez se tornaram quinze; quinze se tornaram vinte, assim por diante,
até que quando um minuto se completou, o rosto suado e de olhos arregalados de
Noah surgiu na janela da cozinha, bem à direita no campo de visão de Hope.
Noah avaliou o corredor, provavelmente em busca de Hope, e
ainda temia ser visto, pois tinha espasmos e parecia que se esconderia a
qualquer instante, ao menor sinal de movimento, ou que se assustaria e saltaria
para o teto feito um gato assustado. A visão do garoto enfrentando seus medos
trouxe uma espécie de alívio e confiança ao abalado Hope, que abriu a porta o
mais lentamente possível para que ela não rangesse novamente. Não adiantou. A
porta estalou quando ele abriu alguns graus, e continuou estalando a cada grau
aberto, forçando Hope a fazer pequenas pausas para escutar o ambiente ao seu
redor; desse modo, ele gastou quarenta segundos para abrir uma pequena fresta e
a metade deste tempo para dar o primeiro passo para fora do armário.
Finalmente, quando Hope se esgueirou de volta para o ar não
menos parado do corredor, Noah o viu e se assustou com ele, e depois apontou
para a caixa de emergência na parede do entroncamento transversal do corredor,
o mesmo lugar de onde o primeiro Joe Trabalhador havia saído para receber o
rebite na bochecha direita; fixada na parede entre a esquina do corredor e
outra janela que havia ali, a caixa do painel de emergência estava fechada como
sempre deveria estar — de acordo com as instruções pintadas em sua tampa de aço
— e respingos do sangue branco que fluía pelas veias dos Joe Trabalhadores
escorriam por ela. Hope abriu a tampa da caixa, e uma alavanca de ergonomia
adaptada para ser puxada com as duas mãos se revelou dentro dela. Com um último
olhar na direção escura do corredor, e depois outro na outra extremidade, Hope
puxou a alavanca e cancelou as travas de emergência da cozinha.
Duas portas se abriram imediatamente após a alavanca voltar
para seu estado inicial — a da cozinha e a do fim do curto corredor transversal
onde Hope estava — e logo em seguida Noah o alcançou. O jovem teria o apressado
para sair dali, mas o mecânico o segurou e fez sinal para que ele se acalmasse,
e depois fez um gesto para que o seguisse. Retornaram para o corredor mais
largo, saltando o manequim inerte do Joe abatido com desdém, onde Hope
recuperou o lança-chamas e entregou a pistola pneumática a Noah.
— Guarda isso — Hope cochichou — Não tem mais cápsula pra
ela.
— E o que a gente vai fazer com o outro Joe?
— Tô pensando ainda. Vem.
Hope olhou ao redor, procurando por algo que pudesse usar
contra o Joe, mas não havia nada além das almofadas dos assentos embutidos ou das
caixas e malas deixadas para trás naquela estante.
— Talvez ele foi pra cafeteria — Noah comentou com um
sussurro, mas Hope ficou calado, e fez um gesto para que o rapaz ficasse
agachado ao lado dele; depois, ficou em dúvida sobre a quem Noah se referia, se
ao alienígena ou ao sintético. Com outro gesto, o mecânico pediu ao técnico
auxiliar que continuasse agachado, e depois o conduziu pelo caminho de volta.
Agora que encarava o mesmo corredor no sentido oposto, Hope
sentiu como se ele tivesse se alongado como o crânio da coisa que caçava, e
ocorreu-lhe a sensação oposta daquela que se tinha nas viagens de volta para
casa; o corredor parecia maior, embora não tivesse aumentado em tamanho um só
milímetro. À frente, o trajeto fazia uma curva para a esquerda e, depois, para
a esquerda, se assemelhando a um “S” espelhado; depois continuava reto por
cerca de quinze metros antes de fazer uma curva de noventa graus. Ali não havia
janelas até o fim do corredor; havia, no entanto, outro entroncamento
transversal pelo qual Hope havia passado antes, e dele o androide da Seegson surgiu
de repente, e cravou o olhar vermelho nos dois sobreviventes.
— Você e eu vamos ter uma conversa sobre segurança — afirmou
o Joe, o som grave de sua voz soando sem que sua boca se mexesse — Por favor,
não corra.
— Vai! Vai! Vai! — falou Hope, empurrando Noah de volta pelo
corredor, tentando não gritar, tentando não atrair de volta a coisa.
— Correr causa acidentes — o Joe falou, mas tanto Hope
quanto Noah o ignoraram.
— Esse corredor dá a volta pela cafeteria! — disse Hope —
Vai!
— Não corra — o Joe voltou a dizer.


