Ressonâncias do Amanhã | Marcelo Bighetti

Ressonâncias do Amanhã, 24 páginas, orginalmente publicado na Revista Histórias Extraordinárias nº9, em agosto de 2024 (conto)

Viagem no tempo.

Respeito muito o autor que se ingressa nesta temática e que consegue sair dela com maestria. Escrever histórias com viagem no tempo não é tarefa fácil. É um tema traiçoeiro. O autor precisa definir bem as regras de lógica temporal e segui-las à risca, coisa que exige atenção quase obsessiva aos detalhes, isso sem perder o equilíbrio entre explicação e narrativa, complexidade dos personagens, suas motivações ao mesmo tempo em que tenta evitar as famosas soluções fáceis: os clichês. "Voltar no tempo e consertar tudo" é uma saída que, se mal trabalhada, tira a imersão da história. Talvez este seja o atalho mais conhecido, pois ele é oferecido pelo próprio conceito de viagem no tempo, e isso faz com que ele seja também o mais perigoso dos caminhos que um autor pode seguir dentro do tema.

Felizmente, em Ressonâncias do Amanhã, o caminho escolhido por Bighetti é outro. Em vez de pessoas viajando ao passado ou ao futuro, há mensagens atravessando séculos sob a forma de sonhos. Ao deslocar a viagem no tempo do campo físico para o campo da percepção, o conto evita parte dos problemas clássicos do gênero ao mesmo tempo em que introduz outros, talvez até mais interessantes, a depender da perspectiva em que se analisa o texto. Afinal, sonhos são uma linguagem imperfeita, sujeita a ruído, interpretação e distorção, e é nesse espaço de incertezas que a narrativa se constrói, alternando entre o projeto científico no futuro e a experiência fragmentada de quem, no passado, recebe essas “mensagens” sem ter qualquer estrutura para compreendê-las plenamente. De certa forma, então, o conto acaba não sendo sobre viagem no tempo, mas sobre comunicação entre contextos incompatíveis.

Se Ursulina de Jesus, uma mulher comum da São Paulo do século 18, já sofria com um casamento abusivo nas mãos do marido opressor, sua vida se torna consideravelmente pior quando ela começa a ter sonhos com o estranho mensageiro do futuro.

A escolha do passado por parte do autor não se deu por capricho. A São Paulo de 1754 trás uma série de camadas para o conto. A dominância religiosa era muito maior naquela época. Sonhos podiam ser interpretados como visões divinas ou como acordo com o diabo  tudo dependia, é claro, da posição social de quem o recebia. Se um padre tivesse sido o receptor das mensagens do futuro, tudo teria ocorrido sem grandes problemas, mas é Ursulina de Jesus (pobre coitada), dona de casa e sem filhos, esposa de Sebastiano, marido violento e agressivo, quem recebe as mensagens do Projeto Chronos. 

É justamente nesse descompasso que o conto encontra uma de suas tensões mais interessantes. A mensagem que parte de um ambiente científico, estruturado e racional, chega a um contexto em que não há vocabulário social ou simbólico para interpretá-la como tal. O que, para Marcos e Vanessa em 2072 não passa de experimento, para Ursulina pode ser outra coisa.

Porém, que importava o que pensava uma mulher em 1754?

Importava o que pensavam o marido e os párocos. No limite, o conto sugere que comunicação não é apenas uma questão de transmitir informação, mas de quem tem o poder de definir seu significado. Entre o laboratório do futuro e a vida doméstica de Ursulina, há séculos de distância, mas há também ruptura de linguagem, de autoridade e de realidade, o que produz consequências concretas dentro da narrativa criada por Bighetti. Ao tentar dar sentido ao que vê, Ursulina interpreta os sonhos e age a partir deles, ainda que de forma hesitante e limitada pelas estruturas que a cercam. Neste ponto, o conto se aproxima da possibilidade de que uma intervenção, por menor que seja, possa desencadear efeitos que nem emissores nem receptores são capazes de prever completamente.

Do lado do Projeto Chronos, há uma aparente ilusão de controle. Marcos e Vanessa operam sob a lógica do experimento, mas o que o conto sugere é que a simples transmissão de informação já constitui uma forma de interferência particularmente perigosa, justamente por não se reconhecer como tal.

A narrativa, como era de se esperar, alterna entre 1754 e 2072. Ela varia entre os relatos  secretos de Ursulina (escritos em seu diário, que ela mantém escondido do marido Sebastiano), relatórios rápidos do Projeto Chronos e diálogos dinâmicos entre as personagens. É uma leitura fácil, sem necessidade de conhecimento teórico para que se entenda a parte em que Marcos e Vanessa conversam sobre "tempo linear" e "tempo esférico". No fim das contas, isso pouco importa para a narrativa. As discussões sobre tempo, embora presentes, funcionam mais como pano de fundo do que como motor da história, o que torna a experiência mais acessível, evitando que a explicação científica se sobreponha à experiência narrativa enquanto desloca o foco para as consequências humanas de uma comunicação que falha por excesso de distância entre os mundos que tenta conectar.

Ao evitar os caminhos mais óbvios da ficção de viagem no tempo, o conto encontra um espaço menos interessado em paradoxos e mais atento às falhas da comunicação, condição que permanece constante, independentemente do século, na natureza humana.

A versão traduzida para a língua inglesa deste conto recebeu menção honrosa pelo L. Ron Hubbard's Writers of the Future, um dos mais importantes e bem estabelecidos concursos para novos escritores de ficção científica e fantasia do mundo.

Mais do que uma história sobre o tempo, Ressonâncias do Amanhã trata dos limites da compreensão, da experiência humana diante do desconhecido e, por isto mesmo, é uma leitura especialmente recomendada para quem deseja se iniciar na ficção científica nacional.

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