Porto Seguro | Parte 1
Um conto Alien: Isolation
A pesada porta dupla se fechou automaticamente atrás de Hope com um chiado eletrônico, e ele pôde recuperar o fôlego perdido em quase uma hora em fuga; o lança-chamas ainda estava quente, e ele o largou no chão metálico sem cerimônias, caminhando até a poltrona voltada para a janela panorâmica da única sala segura que ele havia conseguido encontrar em toda a estação. Por um instante, percebeu seu reflexo no vidro da janela enquanto acendia o derradeiro cigarro do maço amarrotado que lhe restava — magro bastião de um antigo vício e, talvez, um último consolo para seu espírito fatigado.
Levou-o aos lábios ressequidos como se selasse um pacto
silencioso com sua própria finitude, e apreciou aquele momento sem palavras
enquanto passeava os olhos pela vastidão sobre-humana das faixas fulvas e pelos
turbilhões violáceos do gigante gasoso KG-348, que parecia observá-lo com
desdém silencioso, indiferente à sua exaustão, às falhas da missão e ao aperto
gelado no coração de quem retorna de mãos quase vazias. Tragando fundo o
ar viciado do abrigo, Hope passou a mão pelo rosto suado, sentindo que cada
incursão para além daquelas portas se tornava mais perigosa e mais improvável
de trazer algo que justificasse o risco; a sensação de estar jogando dados com
a própria vida se tornava mais concreta a cada dia, e cada trago lhe
parecia uma medida de sua própria paciência, de seu desespero e da consciência
plena do arrependimento que o consumia de dentro para fora. Quando aceitou
o emprego de técnico de manutenção na Sevastopol, a Seegson & Co. ainda não
havia caído na espiral de fracassos frente o império corporativo
construído pela Weyland-Yutani, e ele recebeu o convite com júbilo e o
considerou uma dádiva; mas à luz da inevitabilidade de sua solidão e do
fracasso iminente da Seegson, aquele convite agora lhe parecia uma condenação
assinada com bits de informação, e cada procedimento mecânico que
aprendera, cada protocolo de emergência que dominara, cada passo dado nos
corredores estreitos e frios da Sevastopol não passara de uma gota de suor em
um oceano de inevitável aniquilação corporativa.
— Isso aí — disse ele ao planeta que ocupava
quase dois terços da janela — Pode rir da gente, a gente merece... Não
vai vir ninguém... Que merda. Que merda gigante!
Hope fechou os olhos e deixou a cabeça pender para trás.
Ficou encarando o teto por um minuto, sentindo o peso do corpo afundar cada vez
mais na poltrona dura. A lembrança da Seegson triunfante, com promessas de
avanço tecnológico e prestígio corporativo parecia agora tão distante quanto a
Terra; parecia um passado inóspito do qual ele só ouvira falar nos livros de
História.
Perdido em devaneios e consumido pelo derrotismo, Hope havia
consumido metade do cigarro quando um conhecido aviso sonoro partiu do terminal
às costas dele. Hope deu um longo suspiro impaciente.
— O que foi agora?
Irritado, o mecânico se ergueu e lançou um último gesto com
a mão que segurava o cigarro na direção do planeta que surgia pela janela.
— Se for outro dos seus bichinhos, vou colocar fogo nele!
— disse, apontando para o lança-chamas deixado no meio da sala
— Cuidado comigo!
O terminal emitiu outro bipe estridente. Hope arrastou os pés
até o terminal cujo monitor jazia desligado, pressionou um botão para ativá-lo
e viu o brilho verde das letras monótonas refletir em seu olhar fundo.
— E ainda perguntam por que a Seegson tá perdendo a corrida
tecnológica...
Ao terminar de carregar, o computador exibiu uma janela com
quatro diretórios; Hope acessou o último deles, intitulado
"Mensagens" em caixa alta, e o conteúdo arrancou um palavrão de sua
garganta seca. A mensagem não assinada de texto exibia um pedido de socorro
desesperado, redigido às pressas, com erros de digitação e frases
truncadas, como se o autor tivesse escrito entre um passo e outro de uma fuga
ainda mais desesperada, implorando por ajuda antes que a "criatura" o
encontrasse. Não era a formalidade protocolar de um aviso corporativo, nem
a frieza de um comando distante; havia desespero nela, havia urgência crua, e Hope,
apesar do arrependimento, da raiva e da exaustão, sentiu a pontada familiar da
responsabilidade lhe apertar o peito.
Ele digitou com rapidez, tentando abrir um canal seguro pelo
qual pudesse falar com aquela pessoa; não gastou mais do que dois
minutos até ouvir o bipe confirmando a conexão instável; a tela
piscou, linhas de caracteres deformados surgiram, até que uma caixa de
diálogo rudimentar se abriu com o título CANAL ABERTO – TEXTO SEGURO
(INSTÁVEL), e então Hope começou a digitar.
— Aqui é o Hope. Recebi seu pedido de socorro. Qual sua
localização? Identifique-se.
O cursor piscou durante alguns segundos, que mais se
pareceram longos minutos a Hope, antes de a mensagem vinda do outro lado do
canal aparecer no monitor.
— É o Noah. Tô na cozinha dos Apartamentos Baco. Onde você
tá, cara? Vem me buscar, pelo amor de Deus!
Hope, que estava na Sevastopol há seis anos, não precisou
olhar no mapa para saber que Noah Trachtenberg estava relativamente perto; aos
olhos de Hope, Noah era um menino que trabalhava na sala auxiliar dos
servidores, mesmo que seus vinte e um anos estivessem batendo à porta; não o
conhecia muito bem, mas ele o lembrava de seu filho, que era só um tanto mais
novo que ele, e o via andar de um lado a outro pelos corredores dos Sistemas
Secundários Gemini, sempre de uniforme suado, o que significava que era
prestativo ou que os rapazes do andar inferior se aproveitavam de sua boa
vontade.
— Noah, você tá perto de mim — escreveu — menos de 50
metros, é basicamente uma linha reta, se vier em silêncio você me alcança em
menos de dois minutos.
— Não dá. Tô preso aqui. Tem dois Joe Trabalhadores
rondando o corredor. Eles conseguem entrar aqui se quiserem, mas não me viram
entrar. Vem me buscar, cara, pelo amor de Deus!
Hope parou de digitar, pensativo. O lança-chamas não o
serviria em nada contra os androides da Seegson, que suportavam temperaturas
acima dos 3000º Celsius, mas o "grampeador" lhe serviria bem.
— Você ainda tá aí? — chegou a ansiosa
mensagem de Noah — Vem logo, por favor!
— Estou pensando. Espera um pouco.
O "grampeador", como ele gostava de chamar, não
era uma arma em si; o termo técnico era pistola pneumática de parafuso cativo,
e era usada pelos engenheiros da Sevastopol apenas para trabalhos muito
específicos de reparo e manutenção, porém, assim como muitos na estação vieram
a descobrir, o "grampeador" se revelara uma ótima arma contra os
androides que agora perambulavam "defeituosos" fora de seus perímetros;
no entanto, devido ao som alto que fazia quando disparava, Hope só a utilizava
em casos de emergência. Tateando os bolsos, porém, descobriu que lhe restavam
apenas dois rebites, o que o preocupou. Os Joe Trabalhadores eram burocráticos
e facilmente se perdiam em seus protocolos e diretrizes, mas eram resistentes,
e nisso Hope reconhecia a competência da Seegson; dois dias atrás, vira um
homem disparar uma escopeta mais de uma vez contra um deles, à queima-roupa; o
androide continuou caminhando, e o homem agora não respirava mais.
— Não sai daí — Hope digitou, apressado — Tô
indo te buscar.
— Tô trancado, cara...
O caos familiar que abarrotava de caixas e equipamentos o
largo corredor que dava acesso aos Apartamentos Baco se revelou envolvido pela
penumbra das luzes de emergência; o cheiro de plástico queimado, óleo e oxônio
era pungente e denunciava a falha gradual dos sistemas de purificação do ar, e,
às vezes, a estação inteira parecia tremer e sacudir, mas nada havia mudado de
lugar desde a última vez em que ele passara por ali, cerca de duas horas atrás.
O corredor fazia uma curva à esquerda logo que as portas se
abriam, e Hope se demorou naquela esquina por quase um minuto antes que tivesse
coragem de espiar o que havia depois dela. O acesso continuava por pouco mais
de quinze metros em meio à caixotes saqueados, e por toda sua margem esquerda
um longo e único assento embutido o ladeava; estava repleto de valises, folhas
soltas, copos, pranchetas e uma miríade de objetos aleatórios. Na parede
direita, no centro do corredor, uma porta fechada marcava o acesso ao corredor
que liderava ao refeitório; Hope passou o mais distante dela, não queria que
seus sistemas automáticos a ativassem com sua passagem, e a cozinha ficava
seguindo adiante. Uma saleta decagonal cuja iluminação amarelada ainda
funcionava surgia à esquerda, Hope ignorou, pois ali já não havia mais nada que
pudesse ser saqueado a não ser as várias edições empilhadas da revista mensal
da Seegson.
Caminhando agachado, com pressa e temendo que uma respiração
soturna o atingisse a nuca a qualquer segundo, Hope seguiu o corredor até o
final, passou por outro acesso lateral à sua direita e finalmente se escondeu
atrás de uma estante posicionada de qualquer forma no meio do trajeto, como se
alguém estivesse a empurrando e a abandonara ali mesmo quando todo o caos
começara; havia caixas nela, valises e caixotes desorganizados, de modo que Hope
pôde espiar o androide auxiliar através dos espaços estreitos entre elas.
Mesmo em modo de espera, os Joe Trabalhadores nunca ficavam
parados. Sempre se movimentando, não se distinguiriam em nada dos humanos não
fosse sua aparência emborrachada e faces vazias de expressões. A Seegson
anunciara de forma destacada — ainda no início de 2100 — a aparência
genérica de seus androides como forma de se distanciar dos sintéticos de
realismo humano produzidos pela Weyland-Yutani, mas garantiu que o modelo era
mais seguro e mais confiável dos que aqueles produzidos pela sua concorrente,
fato que agora Hope considerava extremamente debatível.
— O dia de um sintético nunca termina — disse o Joe
Trabalhador a si mesmo, com sua voz grave, modulada.
Por um segundo, Hope pensou que o androide o tivesse visto,
mas quando a frase terminou, ele percebeu que o robô havia caminhado para uma
sala adjacente que havia adiante, desaparecendo do corredor. Foi a deixa para
que Hope espiasse por cima das caixas na estante. À sua frente, o corredor se
estendia por mais dois metros de se curvar à direita, continuando na escuridão,
e à esquerda uma passagem conduzia a outro corredor transversal, mais curto e
mais estreito, que logo terminava em outra porta. Acima da cabeça de Hope, a
janela da cozinha permitiu que ele visse parte do caos deixado por equipamentos
e utensílios revirados; no vidro, o sangue de alguma vítima havia escorrido e
se acumulado na base da janela, e por um instante Hope pensou ter chegado tarde
demais, mas notou que o sangue estava seco e escurecido, e se convenceu de que
não pertencia a Noah.
Caminhando como se pisasse em ovos para que o chão de grade
fizesse o menor ruído possível, o mecânico se aproximou da esquina, agachado
sob a janela, e rapidamente espiou para dentro dela; viu Noah encolhido sob a
pia, abraçado aos próprios joelhos como se fossem a única coisa que lhe
restava, e diante dele um corpo jazia com a face voltada para o chão, feito um
boneco esquecido por uma criança, e Hope apenas imaginou o terror que aquele jovem
sentia naquele momento, lembrando-se de seu filho em seguida.
A porta na margem direita do curto corredor estava aberta, e
lá dentro Hope visualizou o Joe Trabalhador concentrado em digitar comandos
ágeis no terminal diante dele; o mecânico então se encostou à parede,
respirando fundo; aquela podia ser a chance de puxar Noah para fora dali, mas
cada músculo do seu corpo gritava que qualquer passo em falso poderia selar o
destino de ambos.
Mas aconteceu que, enquanto pensava, o sintético interrompeu
sua sequência de dígitos; o som das teclas cessou de repente, e Hope congelou
quando olhou para o Joe imóvel, como se o androide tentasse escutar alguma
coisa. O sintético permaneceu parado por alguns segundos até que virou o corpo
num giro rápido, e os olhos vermelhos se fixaram exatamente no ponto onde Hope
estava.
O mecânico prendeu a respiração sem perceber, e por um
segundo duvidou que o androide tinha realmente o visto, pois ele não se moveu
de imediato e apenas ficou ali, parado de pé com o corpo voltado na direção dele.
A dúvida, porém, se esvaiu tão logo se formou, pois o Joe deixou escapar o
típico e vibrante som nasal de surpresa e reconhecimento característicos de sua
programação, e então Hope se ergueu e apontou a pistola pneumática para o
Trabalhador, que deu um passo na direção dele.
— Isso pode necessitar da minha atenção — disse o Joe.
Hope pressionou o gatilho enquanto recuava, e a ferramenta
começou a vibrar na mão dele conforme seus mecanismos internos bombeavam o ar
para a câmara de pressurização. Hope tinha uma chance, e se apoiou sobre um
joelho ajustando a mira depois de alguns passos para trás; os sintéticos da
Seegson eram lentos — sua programação não os permitia correr — e Hope contava
com a morosidade com que andavam para carregar ao máximo a pistola antes de
dispará-la.
Os disparos do grampeador eram sempre ensurdecedores. O
estalo seco seguido pelo estrondo da descarga pneumática fazia os ouvidos
zumbirem toda vez e o dardo de pressão atravessar o ar mais rápido que a
velocidade do som; o rebite se alojou no crânio emborrachado do Joe com um
baque metálico que foi mascarado pelo altíssimo som do disparo, e uma nuvem
branca de fluidos borrifados se formou no ar antes de encontrar a parede atrás
do sintético. A cabeça do Trabalhador girou de forma antinatural antes que ele
tombasse para trás e caísse pesadamente contra o chão gradeado, se contorcendo enquanto
seus sistemas falhavam, um a um.
O mais rápido que pôde, Hope abriu a câmara de compressão e
deixou que a cápsula vazia de ar comprimido caísse no chão, mas enquanto
enfiava a mão no bolso em busca da outra, o silvo gutural que não pertencia nem
à máquina e nem à pessoa alguma percorreu as acolchoadas paredes metálicas da
Sevastopol até os tímpanos de Hope.
Toda a ala habitacional dos Apartamentos Baco ouviu o
disparo, e agora a criatura estava indo até ele com toda sua pureza livre de
consciência, remorso ou ilusões de moralidade.

