Nada Mais Será Como Antes | Miguel Nicolelis
Nada Mais Será Como Antes, 511 páginas, Planeta Minotauro, 7ª edição
A primeira vez que ouvi falar deste livro, da boca do próprio Nicolelis, quando então o assistia numa entrevista no canal do YouTube, Os Três Elementos, soube imediatamente que precisava lê-lo. Como escritor iniciante de ficção científica, eu me propus a ler os livros dos cientistas que se ingressaram no ramo da ficção literária — Clarke, Asimov, Sagan, Hoyle, Hawking — uma vez que uma das coisas que mais me atraem na ficção científica é a plausibilidade técnica. Sim, há nomes fundacionais e proeminentes de autores que não eram cientistas de formação, como Julio Verne e Douglas Adams, com imenso talento para pesquisar e imaginar as possibilidades da ciência que não fazem disso uma regra, mas de toda forma, sempre me capta a atenção quando um cientista renomado decide estrear na literatura ficcional, afinal, quem melhor do que um cientista para nos alertar dos perigos da ciência e dos rumos que a tecnologia está tomando?
Miguel Nicolelis é médico, pesquisador e um dos neurocientistas brasileiros mais respeitados do mundo. Professor emérito da Universidade de Duke e fundador do Instituto Internacional de Neurociências Edmont e Lily Safra (IIN-ELS), em Macaíba, região metropolitana de Natal e, mais tarde, do Nicolelis Institute for Advanced Brain Studies, Nicolelis estuda o cérebro humano há mais de quarenta anos, mas sua pesquisa com interfaces cérebro-máquina só foi ganhar notoriedade em 2014, quando Juliano Pinto, um jovem paraplégico, vestiu um exoesqueleto controlado pela mente e deu o chute inicial da Abertura da Copa do Mundo no Brasil. Filho de uma escritora de infantil e juvenil, Giselda Laporta Nicolelis, não é surpresa que o próprio tenha se tornado um escritor. "Nada Mais Será Como Antes", embora seja sua estreia na ficção, não é seu primeiro livro. Pela mesma editora, já lançou uma trilogia de não-ficção formada pelos "Muito além do nosso eu", "Made in Macaíba" e "O verdadeiro criador de tudo", um projeto que reúne os pensamentos desenvolvidos ao longo de sua carreira como neurocientista. Em outras palavras, os livros reúnem tudo o que Nicolelis pode dizer sobre o cérebro humano depois de quarenta anos o estudando. Sendo um crítico ferrenho de muitas das atuais políticas econômico-sociais, ao poder das grandes corporações de tecnologia, ao sistema financeiro predatório e à ascensão de lideranças autoritárias alimentadas pela desinformação ao redor do mundo, não é de se surpreender que em algum momento de sua vida surgisse a necessidade de contar uma história que projetasse nosso futuro alguns anos à frente, como a ficção científica bem gosta de fazer. É aquele velho alerta que a literatura fictícia sempre nos dá: "Vejam aonde isso vai dar. E a culpa é toda nossa".
Mas do que se trata "Nada Mais Será Como Antes"?
A trama tem uma mistura de conspiração global, tecnologia de ponta e uma catástrofe natural iminente contra a qual humanos nada podem fazer. O protagonismo cabe à neurocientista Tosca Cohen e ao seu tio octagenário, Omar Cicurel, um matemático que fez muito dinheiro quando trabalhava no sistema bancário. Com uma ajuda anti-ética dele, Tosca descobre que um grupo de poderosos do mercado financeiro planeja utilizar sua descoberta — uma tecnologia nova, capaz de conectar cérebros — para criar uma blockchain baseada no cérebro. No meio disso, um evento solar de proporções catastróficas inutiliza toda a civilização eletrônico-digital, forçando a humanidade a um recomeço.
Logo no prólogo, Nicolelis nos apresenta à densidade com a qual conduzirá o restante da história. Parágrafos longuíssimos, cheios de detalhes e informações, podem ser um prato cheio para o leitor mais atento, mas para aquele que prefere uma leitura mais leve, "Nada Mais Será Como Antes" talvez não seja um livro recomendado. Por exemplo, as longas passagens sobre a História do Egito, que apesar de evidenciarem a admiração do autor pelo país e sua cultura, pouco ou nada agregam à trama principal. Talvez, em passagens como essa, Nicolelis tenha pecado pelo excesso. É fácil se perder em suas explicações sobre como os ancestrais de Tosca e Omar sobreviveram às crises políticas que assolaram seus países até que eles chegassem ao Brasil, muito embora sejam verdadeiras aulas de geopolítica (leitores que prezam pelo realismo não podem reclamar deste livro).
Por outro lado, não se pode dizer que haja realismo nos diálogos. São explícitos, explicativos, didáticos demais. Ninguém conversa assim, como, por exemplo, numa cena em que Tosca conversa com um guarda de um estádio de futebol:
— Perfeitamente, isso é o suficiente para mim. Deixe-me atualizar o sistema e assim permitir que a senhora entre no estádio legalmente como a namorada núbia do senhor Omar. Nós ainda temos alguma latitude com essas máquinas demoníacas. Tudo bem com a senhora se fizermos assim?
— Claro, eu sempre tive um crush pelos núbios, de qualquer forma. Eu imagino que a solução que o senhor encontrou demonstra inequivocamente que o jeitinho brasileiro sobreviveu aos novos tempos.
— Sem dúvida nenhuma, minha senhora. Nada nem ninguém vai conseguir se librar do jeitinho neste canto do planeta. Ele é imortal, onipresente e intocável. Por favor, leve o velho faraó com a senhora e desfrute do jogo.
"Minha senhora"? Que tipo de gente fala desse jeito? Senti que Tosca, uma neurocientista de 2036, estava conversando com um guarda de muro de alguma aventura de fantasia medieval. E piora quando os personagens vão explicar suas teorias científicas. Nesses momentos eu fiquei me perguntando por que Nicolelis não preferiu colocar tais falas a cargo do narrador, pois soam falsas, mais como se alguém estivesse dando aulas em vez de estar conversando, o que me fez sentir estar lendo uma peça de teatro.
As constantes menções do narrador aos personagens como "nossos protagonistas" e, sobretudo, como "nossos heróis", traz uma carga de maniqueísmo que contribiu para a perda de imersão na obra. O narrador está o tempo todo nos lembrando quem é do "bem" e quem é do "mau", como quando, por exemplo, coloca a seguinte frase na boca de um banqueiro.
E Omar o responde com outro blocão de texto, e por aí vai...— Democracia? O que é isso? Nunca ouvi falar. Não seja um hipócrita, Omar. Desde quando temos uma democracia verdadeira no mundo? Governos, países, eleições verdadeiras? Como você pode usar todas essas miragens criadas pela mente humana como o seu estandarte de luta, ou motivação principal para morrer lutando numa guerra impossível contra um futuro inexorável, contra uma inevitável dominação dos seres humanos pelas máquinas? Tanto as suas amadas eleições quanto a sua tão querida democracia, como você bem sabe, foram totalmente corrompidas e compradas pela maior oferta desde o momento em que os gregos inventaram toda essa boboseira. Basta ver o que os atenienses fizeram com Temístocles, o general que os salvou durante a primeira invasão persa! Eles o condenaram ao exílio, onde ele terminou seus dias como um governador de província, a serviço de ninguém menos do que o rei persa! Quão irônico, não? E quão chata é esta sua ladainha. Eu vejo que mesmo na sua idade avançada e toda sua decrepitude, você continua a desempenhar o papel do príncipe dramático que foi toda a vida. Entediante demais ter que ouvir esse discurso vazio de novo. Depois de trinta anos se escondendo no seu abrigo subterrâneo nos Alpes suíços, um abrigo dourado, pelo que ouvi dizer, eu esperava algo melhor vindo da boca do meu matemático e filósofo das causas perdidas favorito.[...]
Os vilões — os banqueiros mais ricos do mundo — são representados aqui como seres tão desprezíveis, tão focados em fazer dinheiro, que a caricatura aparece até em seus nomes, como o doutor Christian Abraham Banker Terceiro. Banker. É tipo o dono do Itaú se chamar Cristiano Banqueiro Terceiro, vindo da família Banqueiro, o terceiro de seu nome.
Aliás, o mesmo ecoa na geopolítica projetada por Nicolelis. Em 2029, em acontecimentos anteriores aos do livro, os Estados Unidos não suportam mais uma crise financeira e se dividem em cinco países menores. Todo o processo criado pelo autor para se chegar até esse cenário é plausível e fundamentado, mas todo esse clima de distopia possível perde a força quando o narrador nos apresenta ao nome dado a estes cinco países menores: os Estados Desunidos da América. De início, eu pensei que fosse uma forma irônica do narrador (que toma partido na história) tivesse encontrado para se referir a tais países, mas não. Na história, Estados Desunidos da América foi o nome realmente adotado por eles, o que achei fraco. Esperava que ele desse voz aos movimentos separatistas que atualmente existem no país, como o da Califórnia, o do Texas e outros, mas não é isso que acontece, o que para mim soou como oportunidade perdida de construção de mundo, um dos principais alicerces da ficção científica. Talvez, penso eu, a ironia e a satirização se devam pela descrença de Nicolelis na seriedade desses movimentos separatistas. Tudo muito caricato, o que não orna com a verdadeira força do livro: a seriedade com a qual se aprofunda em temas científicos e a crítica social, mais do que pertinente.
Como era de se esperar de um cientista do calibre de Nicolelis, a obra toda é riquíssima em termos de detalhes científicos sobre neurociência, astronomia, física e história. O modo como Tosca e Omar conduzem seus experimentos é uma verdadeira aula sobre como funciona o método científico, desde a observação inicial à conclusão tirada ao final dos experimentos, passando pela formulação da primeira hipótese, pelos testes e pelas análises dos resultados.
Além disso, Nicolelis se vale de fênomenos naturais reais, como a inversão dos pólos magnéticos, ressonâncias atmosféricas e ejeções de massas coronais solares para nos alertar do perigo real que a humanidade está correndo, sem sequer saber disso.
Em termos leigos, uma ejeção de massa coronal acontece quando uma grande quantidade de gás é expelida da superfície do sol quando as coisas ficam tensas por lá. Nas palavras usadas pelo próprio Nicolelis no livro, trata-se de um "sopro do sol", e de forma ainda menos literal, "um arroto solar", apesar de eu preferir minha própria versão: "um peidão do sol". Apesar do nome, a questão é que ejeções de massa coronais são bem reais.
Em 1859, uma dessas tempestades solares atingiu a Terra, induzindo a maior das tempestades geomagnéticas registradas. Por causa dela, desse peido solar, entre os dias primeiro e dois de setembro, auroras polares foram vistas no mundo todo, desde o hemisfério norte até o Caribe, fazendo com que muita gente achasse que o dia estava amanhecendo. Isso tudo porque a tempestade solar daquele ano passou de raspão! Em "Nada Mais Será Como Antes", Nicolelis descreve esse evento real, chamado "Evento Carrington", com muitos detalhes para nos contextualizar, pois ele nos agracia com um arroto solar três vezes mais forte e que atinge a Terra em cheio.
É daí que nasce um dos grandes alertas feitos no livro. Desde o seu início, o autor aponta para as fraquezas de uma sociedade que tem como coluna vertebral uma infraestrutura formada por cabos de toda sorte, encanamentos metálicos, linhas de transmissão elétrica num mundo cujo próprio solo é altamente condutor em algumas regiões. O autor aponta para como a humanidade se tornou "viciada em eletricidade", e como, por pura sorte, não fomos atingidos por uma tempestade magnética como descrita no livro.
É notável como a pesquisa aprofundada deste últimos temas se sobressaem em algumas partes do livro. Há cenas em que nos deixamos levar pelos vários artigos científicos citados por Tosca, descritos detalhadamente pela personagem para defender as teses que lhe surgem no decorrer da história, escrita durante parte da pandemia de COVID-19 — pandemia esta que, inclusive, influenciou em muito na própria trama central do livro. Tosca revela artigos (reais) propondo a correlação entre picos de atividade solar com a ocorrência de pandemias ao longo da História da Humanidade, bem como as Ressonâncias de Schumann (que eu nunca tinha ouvido falar), que contribuem de alguma forma para sincronização de pensamentos entre as pessoas.
Porém, o autor não faz mais do que contar, em linhas gerais, a catástrofe que é quando a tempestade solar atinge a Terra, em um único e rápido capítulo. O que eu entendo. Dedicar páginas a tal fim do mundo já renderia um livro inteiro por si só, o que, mais uma vez, não é o foco do livro.
Mas qual é, então, o foco deste livro?
As Brainets. "Verdadeiras redes de cérebros altamente conectados e sincronizados, capazes de fazer história", conceito que Nicolelis desenvolve ao longo de sua trilogia de não-ficção. Em "O verdadeiro criador de tudo", que recebe um aceno rápido em "Nada Mais Será Como Antes" pela fala de um dos personagens, Nicolelis oferece uma descrição precisa do que seria uma Brainet:
"Basicamente, uma Brainet é um computador orgânico distribuído composto de múltiplos cérebros individuais, que se sincronizam - no meio analógico - por um sinal externo, como luz, som, imagem, química, ondas de rádio ou eletromagnéticas, e é capaz de produzir comportamentos sociais emergentes".
Coisa que o homem conseguiu fazer em 2013, pela primeira vez, ao conectar eletronicamente os cérebros de dois ratos, criando uma interface cérebro-cérebro.
Funcionou assim: um rato "codificador" recebia um estímulo e aprendia uma tarefa, como distinguir entre uma abertura estreita ou larga, por exemplo, usando os bigodes. A atividade cerebral desse primeiro ratinho era registrada por microeletrodos e transmitida pela internet a um segundo ratinho, o "decodificador", que ficava em outro laboratório, nos EUA ou em Natal. Esse segundo rato, sem nunca ter recebido o estímulo, conseguia realizar a mesma tarefa apenas com base nos sinais elétricos recebidos do primeiro ratinho. Soa meio Pluribus? Fica ainda mais. A equipe de Nicolelis descobriu que o cérebro do rato decodificador começou a representar não só os próprios bigodes, mas também os do outro ratinho, o que levou Nicolelis a comentar: "Nós criamos a representação de um outro corpo em seu cérebro, o que foi inesperado".
Dois anos depois, os experimentos avançaram para redes com mais de dois cérebros, e com um estudo publicado na Scientific Reports, Nicolelis demonstrou a primeira Brainet propriamente dita, conectando quatro ratos que sincronizaram sua atividade cortical para resolver problemas computacionais. Em alguns testes, Nicolelis descreveu o fenômeno como a criação de um "supercomputador", uma vez que as Brainets tiveram performance superior à dos animais individuais. Em outras palavras, o grupo pensava melhor do que qualquer cérebro sozinho.
Depois, a equipe testou o conceito com primatas, que são ainda mais neurologicamente parecidos com humanos do que os ratos. Eu poderia encurtar essa resenha dizendo que os experimentos foram como o dos ratinhos, mas desta vez eles fizeram diferente. Os três macacos foram colocados em celas separadas, e cada um deles tinha a tarefa de controlar um aspecto diferente de um braço virtual tridimensional. Individualmente, nenhum macaco conseguia realizar a tarefa, mas quando os três sincronizavam seus cérebros através da Brainet, o braço virtual se movia, e Nicolelis observou que os cérebros dos bichinhos sofreram o que ele chama de "alterações plásticas" para permitir um aumento de sincronia — ou seja, os cérebros dos macacos se alteraram para funcionar em rede! Ademais, Nicolelis sempre disse que suas pesquisas têm aplicações médicas concretas. Um paciente que tenha sofrido AVC, por exemplo, poderia ter seu cérebro conectado à área relativa à linguagem de uma saudável para ajudar na recuperação.
E então temos a transposição para a ficção.
A própria trama do livro já aponta para o medo real do autor do que possa se tornar sua descoberta e da forma insidiosa como ela poderá ser utilizada, e ainda que toda a história já estivesse desenhada e pronta para ser percorrida, pronta para aprofundar o leitor nas maquinações de um mundo à mercê de tal tecnologia, vem a grande e trágica ironia de Nicolelis.
Nas redes, frequentemente pedimos que um meteoro nos acerte para resetar a humanidade, mas Miguel Nicolelis chegou até nós com seu livrinho de ficção científica debaixo do braço para pregar que devemos pedir, isso sim, por uma ejeção de massa coronal.
Enquanto os grandes magnatas da tecnologia e do sistema bancário, tão poderosos e confiantes em seu controle sobre a tecnologia e sistemas financeiros, planejavam dominar o mundo através das Brainets e da blockchain neural, o próprio mundo que ajudaram a construir, meticulosamente conectado, digital e frágil, desaba sobre eles. O que aponta para um questionamento: será que esse tipo de gente ofensivamente rica acredita piamente que suas fortunas serão capazes de lhes conferir algum tipo de imunidade à escala de destruição e devastação que eles mesmos estão promovendo? A resposta já está pronta no livro, e ela é: não, não há imunidade alguma, visto que a riqueza deles é puramente digital, abstrata, e uma vez que o sistema colapsa, ela simplesmente deixa de existir. Não à toa a tempestade solar está lá. Para escancarar a fragilidade do poder ilusório dos donos das BigTechs. Gente que se acha deus por ter muito dinheiro e poder, mas que são tão vulneráveis quanto o mais pobre dos seres humanos frente uma força descomunal da natureza, além de, em termos narrativos, mudar o destino dos protagonistas, de impedir uma ameaça social para ajudar a humanidade a se reeguer.
No epílogo, surgem "Os Bibliotecários", seres que registram a vida inteligente no universo (uma das muitas referências a "2001: Uma Odisseia no Espaço" e a seu autor, Arthur C. Clarke), 50 mil anos depois, para sabermos se o plano idealizado por Tosca e Omar ao fim do livro deu certo, deixando margem para interpretações cósmicas sobre tudo o que acontece no decorrer da história.
Em suma, é uma leitura essencial aos leitores de FC, principalmente os que se interessam pelo debate sobre o futuro da tecnologia, mas pode frustrar quem busca leituras mais ágeis e personagens cativantes, sendo que algumas partes podem ficar maçantes aos mais ansiosos e que preferem que a trama avance. Mesmo assim, o livro te deixa com aquela pulga atrás da orelha ao fim da leitura.
Eu mesmo agora tenho um novo medo desbloqueado: os peidos do sol.


